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03 de setembro de 2012

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Conceituando os Ritos PDF Imprimir E-mail
Os ritos são atividades que ‘devem produzir um determinado efeito’[1]. Seja de purificação ou limpeza do corpo e do ambiente, seja de renovação de forças que equilibram o universo, os ritos possuem função central na vida e organização da sociedade humana.
 
De forma geral podemos classificá-los da seguinte forma:
 
Ritos expiatórios, de limpeza espiritual como penitências e sacrifícios pessoais ou comunitários. Eles expiam o mal já enraizado na sociedade como algum tipo de ‘maldição’, pessoal, familiar, tribal, meio-ambiental. Os ritos expiatórios que mais me chamaram a atenção, de que tive conhecimento, foi entre o povo Chakali, em Gana. Estávamos numa “tabanca” (palhoça) e duas mulheres conversavam sobre certa pessoa e o ancião da casa se levantou e disse: “ti ui aken”, que significa literalmente “a cabaça quebrou”. As mulheres se calaram e saíram envergonhadas e mais ninguém dizia nada do assunto; curioso, fui atrás de uma resposta. Disseram-me, então, que não poderia se falar abertamente sobre o assunto, mas que explicariam para mim, sendo um novato. Quando uma pessoa comete um erro contra a comunidade e é punida, passa seis meses sem poder falar com ninguém e ninguém fala com ela. Passado o tempo, vendo se há uma postura humilde da pessoa, então o ancião daquela casa pega uma cabaça, na verdade é um jarro, cheia de água, vai até fora da aldeia, a quebra e a água é absorvida pela terra; a água nunca mais vai ser achada e simboliza o erro que a pessoa cometeu; isto é feito em nome de toda a comunidade e ninguém mais pode falar sobre o assunto. Não há, na verdade, nenhum termo, entre eles, para perdão, mas há o ato. Estamos atrás, não de termos, mas de idéias. É um ato expiatório.
 
Ritos apotropaicos, afugentadores do mal que ronda a sociedade. Pode ser uma epidemia na comunidade vizinha, uma erupção vulcânica ou simplesmente uma fraca colheita. Este termo significa proteção contra o homem, mas na antropologia é designativo de defesas contra forças pessoais, espirituais ou mecânicas. A idéia é de que estão sendo perseguidos. Normalmente não acontecem dentro das aldeias. Em Cabo Verde tem a ilha do Fogo com seu vulcão e tem a ilha de Bravo onde fica a raiz do vulcão; neste sai uma fumacinha quando a ilha de Bravo treme. Quando o tremor era forte suficiente para amedrontar as crianças de mais de dez anos, então faziam um tipo de rito, em cada comunidade matavam galinhas do lado de fora, abriam um buraco no chão e jogavam ali o sangue, fechando o buraco; assim acreditavam amenizar as forças realizadoras do tremor.
 
Ritos de purificação se assemelham levemente aos expiatórios, embora específicos para a purificação de algum elemento bom, que apenas foi contaminado. Os instrumentos de purificação, visíveis, normalmente são o fogo, água, sal e a abstinência. O pesquisador deve prestar bem atenção a estes ritos, como a purificação da criança quando nasce e assim por diante, pois vamos introduzir a teologia da purificação para a etnia que está sendo alcançada, dentro do espaço consciente aberto por sua cultura.
 
Ritos de transição, propostos por Van Gennep, relatam as atitudes necessárias que acompanham as mudanças de moradia e de status social, ritos de passagem, mudança de idade e posição social, sepultamento e outros. Por exemplo, se um “Hupdah” sai de um lugar para outro, queima sua casa; pode ser para não deixar mesmo a casa ou pode ser um rito de transição; como o Evangelho trata de mudanças, estes ritos nos serão úteis e devem ser bem observados; se há ritos de passagem deveremos observar ainda como as mudanças são processadas. Por exemplo, em culturas TCP (tradicionais, teófanas e históricas) estas mudanças se processam lentamente e são necessários atos ritualísticos para que seja aceita pela sociedade e absorvida pelos indivíduos. Outro exemplo de mudanças que se processam com muito tempo, podem ser lembrados os Konkombas: quando um homem morre, a viúva tem que se adaptar, escolhendo entre ficar isolada, porque não pode voltar para a casa do pai, ou casar-se com o cunhado; isto gera um impasse que demanda tempo e como solução interna para tal situação da viúva, a tribo leva seis meses no funeral dando tempo a ela. A transição de um chefe da tribo para outro leva cerca de vinte anos, o tempo de seu funeral, mesmo que no interregno tenham chefes temporários. Nós temos uma expectativa na conversão das pessoas, achando que deve ser imediata, é nossa cultura; no entanto, em algumas culturas onde as mudanças se dão tão vagarosamente, quando pregamos o evangelho, e é uma mensagem que causa impacto para mudanças, cada um que se chega a Deus o faz dentro de sua expectativa cultural; às vezes esta conversão se dá muito lentamente, pensando nós ser uma fraqueza espiritual, mas muitas vezes é que o processo deve ser longo para eles. Quão maior for a proposta de mudança, mais tempo deve levar. O processo ritualístico no processo de mudança de um convertido é lento e fica num vai e vem que não entendemos, mas que faz parte de sua cultura.
 
Ritos de renovação natural limpam o universo, rios, terra, árvores e assim por diante. Normalmente ligados a elementos de sacrifício e, neste caso, utilizando-se de água, fogo ou sal, mais comumente. Aqui a palavra chave é “sacrifício”, tanto na perspectiva animista, como islâmica e judaica; limpam não o pecado individual mas o universo. Tais culturas, tanto onde há ritos expiatórios como de renovação natural, são as que têm consciência muito profunda do pecado. Malinowski percebeu em algumas culturas a idéia da morte para dar vida, parece que há antropologicamente uma linha de compreensão que para afirmar uma vida, ou purificar uma vida, o melhor é a morte. A idéia da cruz entra neste aspecto.
 
Ritos Paliativos, que aliviam a dor, ligados à procura pela paz, seja individual ou comunitária. Tais ritos seguem praticas normalmente abertas, visíveis e observadas tais como peregrinações ou autoflagelo. Na idade média tínhamos aqueles longos jejuns e purificações, a pessoa tentando se purificar de sua própria culpa.
 
Ritos de reconhecimento de poder, que estão ligados a adoração, reconhecimento da entidade que ‘provoca’ o rito, ou louvor que é o reconhecimento dos feitos da entidade provocadora do rito. Freqüentemente há presença de possessão espiritual, fenômeno que possui várias percepções. Para alguns é um “estado de sonambulismo provocado, com desdobramento e substituição da personalidade” .[2] 
 
Mencionando sobre os processos rituais Laburthe-Tolra e Warnier afirmam que:
 
 “A busca de uma religião aberta, desembocando em perspectiva planetária, poderia tornar possível o cristianismo na África e Ásia, se este chegasse a manifestar, enraizando-se nas culturas, a universalidade de sua mensagem. Mas o cristianismo esbarra no racionalismo leigo e no relativismo que contestam o seu direito a desempenhar um papel no mundo moderno ... Os próprios sincretismos testemunham a capacidade das religiões de salvação de dar vida aos símbolos antigos. Atualmente, no entanto, os antropólogos com freqüência acusam os cristãos de terem destruído a autenticidade das culturas com seu proselitismo. A verdade, no entanto, é mais complexa: podemos afirmar, ao contrário, que as igrejas são as únicas instituições bastante desinteressadas e isentas para recolher o que subsiste das culturas em vias de destruição”[3].


[1] Käser, Lothar. Diferentes culturas – Uma introdução à etnologia. Londrina: Descoberta, 2004.
[2] Rodrigues, Nina, citado por René Ribeiro no livro “Antropologia da religião e Outros Estudos”, da Editora Massagana, 1982, (citado à pg.159).
[3] Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit., pg 264
 
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